12 de fevereiro de 2015

Paraquedas

E, do nada, ele caiu de paraquedas na minha vida.

Eu estava distante, em outro mundo, pensando em outras coisas e querendo não me prender a nada. Querendo não me apegar a ninguém. No início, foi um pouco estranho. Falávamos idiomas diferentes e havia um mar de quilômetros entre nós dois. Mas acho que foi uma surpresa boa, algo fora do script, não planejado… Era diferente para mim e divertido também. Ele era divertido. E ele sabia o que estava fazendo.

Paraquedas

Sem que eu notasse, ele amarrou um fio de barbante em volta da minha bolha de sabão e foi me puxando lentamente para mais perto dele. Levei algum tempo para perceber que eu estava mudando de lugar, mas a nova paisagem parecia ser agradável, colorida também. Começamos a nos falar mais, conversar sobre assuntos aleatórios. Ainda estávamos em estágios diferentes, ele querendo se aproximar de mim e eu querendo recuar de qualquer situação incerta que pudesse me derrubar. Ele sabia muito sobre mim. Eu não sabia nada sobre ele.

Começamos a conversar mais e mais. Aos poucos, fui coletando informações sobre ele e percebi que ele era muito diferente do que deixava as pessoas perceberem… Ainda assim, ele era de um mundo muito afastado do meu, mas não tão divergente quanto eu imaginava. Passei a enxergar um pouco do que ele tinha por dentro, abaixo da máscara, e me surpreendi bastante. Ou talvez fosse apenas uma grande cena de teatro, nunca saberei. Mas isso fez minha barreira baixar um pouco e eu quis conhecê-lo mais a fundo, de verdade. Saber mais e me envolver mais.

E então uma noite mudou toda a nossa trajetória. Ou a minha, pelo menos… Acho que foram as palavras que trocamos, do jeito que trocamos, e eu pude ouvir a minha ficha caindo, fazendo um estrondo e ecoando dentro de um quarto vazio. Fiquei um pouco assustada, mas eu sei que era o que eu precisava ouvir para me deixar correr o risco. Tentar a sorte ou o azar. No dia seguinte, depois de um silêncio ensurdecedor, ele apareceu nos meus sonhos pela primeira vez. Acordar, depois de tudo aquilo, foi difícil. Algumas noites após aquela, ele apareceu novamente, dessa vez me deixando com vontade de nunca mais acordar. Mas eu pisei no freio, continuei indo devagar e sem pensar demais sobre isso. Fui apenas aproveitando os momentos, as conversas, os vácuos de horas entre uma mensagem e outra.

Ele não era comum e nem um pouco fácil de agradar. Ele sabia o que queria e estava planejando cada jogada com muita atenção para conseguir chegar lá, onde quer que isso fosse. Eu sabia que devia ser cautelosa, que não podia acreditar naquela história, que o jogo ia acabar antes mesmo da ampulheta chegar ao fim, mas os pequenos detalhes me diziam que eu deveria arriscar. Eu só queria que ele saísse da minha cabeça por alguns segundos, mas notei que isso tinha se tornado bastante impossível. Antes do que eu imaginei que pudesse acontecer, cheque-mate.

Tudo ficou mais claro quando eu senti o primeiro frio na barriga. São poucos os indivíduos que têm o privilégio de me causar esse fenômeno. E, geralmente, isso é um indicativo de que eu não posso mais voltar atrás. Aquilo apenas confirmou que as coisas estavam mesmo mudando e que eu estava indo para a direção errada. Os suspiros também vieram. Eu já não estava mais só, ele estava sempre comigo. À distância.

Ele se tornou presente em todos os dias da minha vida. Sem exceção. E, querendo ou não, isso estava me fazendo bem. Deixando-me um pouco ansiosa, mas de uma forma boa. Ele me fazia sorrir e me fazia pensar. Ele colocava muitas pulgas atrás da minha orelha… Era sempre ousado, muito ousado. E isso era bom, eu acho, porque eu sou certinha demais. Ele me tirava da minha zona de conforto e me fazia querer tentar de formas diferentes. Ele deu nó na minha cabeça, me deixou encarando o celular por horas e também me fez companhia quando eu estava a sós com os meus botões. Ele fez amizade com os meus botões e resolveu que não ia mais arredar os pés da minha cabeça. E eu disse “tudo bem, eu gosto de te ter por aqui.”

Vou voltar para minha bolha de sabão...

Até ontem, ele era um estrangeiro para mim. E, de repente, eu queria ele mais perto, dentro da minha bolha de sabão. Eu queria colo, queria abraço, queria ele do meu lado. Eu queria acreditar nessa história louca e fingir que tudo estava como deveria estar. Mantive-me em alerta em todos os momentos, mas eu já não me importava mais com isso. Eu queria tirar os dois pés do chão e voar para onde o vento soprasse. Eu não queria pensar em fronteiras, não queria me preocupar com gasolina e pedágios. Ou milhas aéreas. Eu não queria pensar muito, porque eu sabia que o caminho seria interditado em breve, independente de qual fosse o obstáculo.

Depois de tanta euforia, desencontros e contradições, os ponteiros se desalinharam. Nada mais estava sincronizado. E, sinceramente, eu não estava preparada para isso. Eu não achei que tudo fosse se dissolver tão cedo, que a quilometragem fosse se tornar permanente. Os dias estavam contados e eu sabia disso. O mapa foi rasgado em duas partes, ele simplesmente não deu tchau e foi embora. Talvez para sempre, talvez por um longo intervalo de tempo. Talvez ele volte, talvez não. Talvez nunca mais. Eu não sei.

Agora eu vou juntar o paraquedas do chão e voltar para a minha bolha de sabão. Talvez eu nem devesse ter saído dela, estava mais segura lá. Mas de uma forma ou de outra, eu precisava disso para me mostrar que o lado esquerdo do meu peito não estava envolto por um iceberg, afinal de contas. Ele está lá, adormecido e se preparando para voos mais altos. Quando eu acertar o vento e as asas começarem a ganhar altura, tenho certeza de que a vista lá de cima será incrível. Por enquanto, o que eu sei é que sentirei falta deste paraquedista.

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3 comentários em "Paraquedas"
  • Adorei seu texto, não sei o quanto de real e o quanto de fantasia tem nele, mas faz parte de viver. Distância sempre é um problema, não sei exatamente o tamanho da sua, mas sempre tem como se resolver, claro é bem solitário as vezes, mas tem gente que está perto e não consegue esquentar nosso coração como aquele que está longe.

    Amor tem dessas, a gente mais perde do que ganha, mas quando ganha vale por todas as derrotas…

    Bjoos

  • Gostei do teu texto, acho que reflete bem a insegurança que temos em nos entregar à paixão quando estamos conhecendo alguém.
    Todos os relacionamentos à distância que eu soube, terminaram desta mesma forma que tu descreveu: meio que “do nada” uma das partes simplesmente se afasta. Acho muito difícil manter um relacionamento à distância e admiro quem consegue…
    Mas o mais importante é descobrir que o coração sempre pode voar, mesmo que com uma asa meio machucada, né? Beijos!

  • Relacionamento à distância é algo bem complicado, mas não é uma coisa impossível. Com fé, determinação e força de vontade de ambas as partes, com certeza é possível construir uma romance bonito. Digo isso porque tenho alguns amigos que tiveram que se separar por um tempo.

    Do que tu escreveu, o mais chato não é nem a distância, e sim a pessoa te dar atenção por tempo, fazer tu permitir a entrada dele na tua vida para depois sumir como uma bolha de sabão, como se quisesse apenas brincar um pouquinho e depois voltar pra casa.

    Te entendo perfeitamente e sei que tu sabe que isso pode acontecer outras vezes. Mas, o lado “bom” disso é que a gente aprende tanta coisa e já sabe o que devo ou não fazer nas próximas vezes.

    Boa sorte e fica a bem!