20 de julho de 2012

Capítulo Um

Ela estava sentada numa mesa para duas pessoas, ao lado da janela, naquele café em que, um dia, já havia sido o seu local de trabalho. Em sua frente, uma xícara de mocaccino e um muffin de lemon poppyseed, mas seus pensamentos estavam longe dali… Não sabia como havia parado naquele lugar novamente, longe de casa, longe de tudo, mas era uma forma de recomeçar. Recomeçar sua vida do zero, sem pensar em nada do que havia passado nos últimos tempos, em cada lágrima escorrida e em cada sorriso desperdiçado.

Foram as palavras dele que a fizeram tomar uma atitude, foi por incentivo dele que ela estava lá. Ele dizia que sentia inveja por ela ter conseguido se organizar e guardar dinheiro para viajar, conhecer o mundo, realizar o sonho de morar fora. Mas não era tão simples assim… O sonho era antigo, mas ela estava lá porque precisou escapar da vida que vivia, fugir do que estava lhe fazendo mal. E mais do que isso, ela não podia desistir, não agora. Não por causa dele. Ela precisava seguir a sua vida, longe ou perto de onde estava, mas fora do alcance dos olhos deles. Aqueles olhos dele.

“Eu acho que você devia ser escritora”, disse ele, sem mais nem menos. Há, como se ela não soubesse… Daria e desistiria de tudo para passar o resto da vida escrevendo, sem dúvida alguma. “Você não tem noção de como é legal tudo o que você escreve, o jeito como você escreve”; é, talvez ela não soubesse mesmo. Mas ela estava ali para provar o contrário. Para provar que ela era mais forte do que aquilo, que ia passar por cima de tudo e correr atrás dos seus sonhos. Os dois sonhos mais importantes da vida dela: morar no exterior e ser escritora… Não necessariamente nesta ordem.

Quando ela disse que estava tudo acabado entre eles, aquelas palavras voltaram fortes… “Eu acho que você devia desistir de todo o resto e lutar pelo o que você quer. Se escrever é o que você mais gosta neste mundo, por que não largar todo o resto e focar nisso?”, foi o que ele disse. Como se fosse fácil… Mas talvez não fosse tão difícil como ela pensava. Talvez nada precisasse ser tão difícil como ela pensava. Talvez fosse só uma questão de ponto de vista.

Mesmo depois de meses sem ouvir a voz dele, ela ainda lembrava daquele timbre que tantas vezes a empurrou pra frente. Era difícil se desfazer deste pedaço da sua vida, enterrar uma lembrança de alguém que só queria o seu bem e que tantas vezes lhe fez sorrir entre lágrimas, que acreditava em seus sonhos e em seu potencial, que a entendia e era entendido com tanta facilidade. Era difícil não lembrar que ele queria que ela fosse feliz, que lhe apoiava em suas decisões, independente de quais fossem.

E agora ela estava longe de tudo aquilo que viveram juntos. De volta em Toronto, depois de tantos anos… Recordações que fizeram parte do seu passado e que agora eram o seu presente novamente. Não tinha lembranças com ele ali e isso era bom. Mas aquelas palavras ainda martelavam em sua cabeça: “larga o resto e foca nisso”… E assim como em todas as outras vezes, foi o que ela fez. Ouviu o que ele tinha a falar, fechou os olhos e fez o que tinha vontade de fazer. Provavelmente agiria assim para o resto da vida. A única coisa que jamais ia mudar: o poder que ele tinha de fazê-la acreditar que tudo ia dar certo, que só era preciso enxergar o lado bom de tudo.

Ela baixou os olhos rapidamente quando viu um casal de mãos dadas passar ao lado da janela onde estava sentada. Ainda doía estar ali sozinha, longe da família e dos amigos. “Mas era preciso”, foi a conclusão a que ela chegou, pois ela precisava arriscar e deixar as coisas acontecerem. E não sentar e esperar o improvável. Enquanto memórias infinitas passavam por sua cabeça (desde o jeito como ele ria, até o jeito como ele sempre apoiava o pé sobre a outra perna quando sentava, meio jogado para trás), uma lágrima escorreu pela sua bochecha direita no momento em que ela pegou a caneta da mesa e escreveu na folha de papel a sua frente: “Capítulo Um”.

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14 comentários em "Capítulo Um"
  • Menina, está na hora de você começar a escrever um livro! Sempre tive essa vontade! Às vezes, eu começo a escrever e paro porque não consigo continuá-la… Vai em frente!!!

    Beijinhos

  • não consigo imaginar ninguém mais mais além de vc por trás da menina do conto.
    então siga o conselho dele e vá ser escritora.
    ;)

  • Ai Fer emocionei menina.
    Eu sou mole pra essas coisas, não sei se correria atras dos meus sonhos se descobrisse que eles não tivessem o mesmo sentido sem a pessoa amada. è muito difícil.
    Não suportaria. Beijão

  • Fernanda :)
    Como vai?
    Muito bom seu texto >.<
    Olha, para correr atrás dos sonhos precisamos deixar pessoas queridas para trás…

    Realmente,você merece ser escritora.
    Sou novo aqui no teu blog mas vejo que tens talento *-*

    Beijos e cuide-se
    Tenha uma excelente semana

  • Oi Fernanda!
    Continuaria lendo essa história tranquilamente. Consegui imaginar todas as cenas que você mencionou, dava até pra ver a lágrima que manchou o papel em que o primeiro capítulo seria escrito.
    Se você lançar um livro, pode ter certeza de que eu vou querer ler! =)
    Beijos!

  • E mais uma vez tu me deixa de queixo caído por causa dos textos… Não sei se é porque eu estou vivendo a mesma fase da história, mas acho que se eu tivesse lido este mesmo texto a alguns meses atrás com certeza ele não faria tanto sentido na vida, mas agora que vivo na mesma sina que essa menina as coisas mudam completamente!

    Sabe porque eu também me identifiquei com a história? Por que pretendo o mais rápido possível conhecer UK (<3) e uma pessoa que se tornou muito especial, depois respondo tua cartinho te contando os detalhes…

    Eu não sei contigo, mas quando dizem que eu escrevo bem e que devo escrever um livro (ainda bem que são poucas pessoas, só assim não frustro os meus sonhos de ser escritor um dia…) eu fico com um pé atrás, sabe? Sou muito inseguro pra essas coisas! O incrível de tudo é que a mesma pessoa que eu gosto e disse que eu não escrevo bem falou pra mim que eu deveria escrever um livro… Sim, eu também fiquei confuso.

    A história mesmo sendo ficção tem algumas inserções da tua realidade, tenho certeza disso. Todo escritor por mais que tente esconder fatos do dia a dia sempre acaba entregando um pouco da sua vida, e contigo não é diferente. Conhecendo algumas coisas da tua vida sentimental, acho que sei de quem se trata, mas deixa pra lá, não vamos lembrar de coisas do passado.

    Fê, ninguém precisa dizer que você tá mais que pronta pra começar a escrever um livro, ou contos belíssimos como "A Partida". O tempo tá passado, criatura, pega os teus melhores textos (sei que vai difícil escolher já que é um melhor que outro), monta um arquivo e sai enviando pras editoras. Se quiser ajuda eu passo um mês inteiro lendo os textos antigos e selecionando pra ti… Um talento como este não pode ser desperdiçado!

    Que o sucesso bata a tua porta o mais rápido possível.

    Bjs!