4 de fevereiro de 2013

Água na boca…

Caminhei até a mesa de bebidas e me servi de água gelada. Precisava me acalmar, agir normalmente. Mas não, eu estava parada em um canto da festa, olhando para todos os lados como uma desesperada, esperando encontrar aqueles olhos… Eu sabia que ele viria, mas minha ansiedade estava me matando. Tentei jogar conversa fora com um grupo de meninas que estava perto de mim, mas como formular frases e ser sensata quando a única coisa em que eu conseguia pensar era em estar perto daquele cara que tirava o meu fôlego e me deixava com água na boca?

Esqueci que estava com o relógio no pulso e fiquei na minha, dançando e falando sozinha com os meus pés, lembrando que aquela noite não tinha hora para acabar. Ao que me pareceu umas oito horas mais tarde — na realidade, foram apenas 40min — eu senti aquele peso conhecido sobre os meus ombros. Ele tinha a mania de jogar os braços por volta do meu pescoço e conversar comigo enquanto me abraçava, me fazendo, na maior parte das vezes, ficar tonta de paixão. Eu não sabia se ele percebia o efeito que tinha em mim, mas a verdade é que toda vez que ele falava perto da minha orelha e eu sentia o hálito dele tocar minhas bochechas, eu precisava prender a respiração e calcular meticulosamente os meus próximos movimentos, para não fazer nada indevido.

Olhei para o lado e ali estava ele, com aquele sorriso largo na minha frente, me deixando sem jeito e, ao mesmo tempo, bastante confortável. Trocamos cumprimentos e ele engatou numa conversa descontraída para me contar como tinha ficado preso no trabalho resolvendo pepinos e que só tinha se liberado alguns minutos antes. Eu não fiz por mal, mas as palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Eu não conseguia tirar os meus olhos dos dele e não entendia como era tão difícil sair daquela hipnose sem fim, que ele constantemente me colocava. Pisquei duas vezes e o avisei que precisava ir ao banheiro. Eu precisava respirar. Doeu quando eu afastei o braço dele de mim e doeu mais ainda quando meus passos me levaram cada vez para mais longe dele.

Alguns minutos depois, voltei para o pátio da casa, onde a festa estava acontecendo, e liguei meu GPS ocular para encontrá-lo na multidão. Varri aquele mar de pessoas mais de duas vezes, mas ele não estava mais lá. Encerrei minhas buscas quando minha melhor amiga passou a mão no meu braço e falou que precisava me contar o que tinha acabado de acontecer com ela. Tentei me dedicar à história, mas minha cabeça estava longe. E meu coração também.

E então eu senti novamente o braço dele tocar meus ombros. Meus joelhos balançaram e minha amiga entendeu que era hora de dar uma volta. Ele perguntou onde eu estava, porque tinha me procurado por todos os lados e não me encontrara em lugar algum. Ficamos ali, conversando (ele) e sentindo borboletas no estômago (eu). O braço dele estava quente e eu percebi os pequenos movimentos que o dedão dele fazia sobre minha pele, me fazendo sorrir sem motivos de tempos em tempos. Eu não sabia onde aquela história ia parar, mas eu sabia que eu não podia mais voltar atrás no que eu estava sentindo. Irreversível.

As luzes do pátio foram apagadas e a música abafou o murmurinho de conversas que rolavam em volta da piscina. Ficamos ali, embalados no mesmo movimento, que nos balançava de um lado pro outro. O lugar começou a ficar mais cheio e eu via rostos por todos os lados, mal havia espaço para caminhar. O braço dele já não estava mais no meu ombro, mas estava solto na frente do meu braço, pairando por cima dos meus peitos, sem tocá-los. Nós ríamos como duas crianças e não fazíamos ideia do que acontecia à nossa volta. Era tão fácil perder o controle perto dele. Era como se estivéssemos sozinhos, em outro lugar.

Não sei como aconteceu, mas foi tudo muito rápido. Quando me dei conta do que ia acontecer, já estava acontecendo. Senti meus pés saírem do chão e minha barriga dar cambalhotas. Quando abri meus olhos, o braço dele não estava mais em mim. Eu estava com água na boca… Não, eu digo, literalmente. Água na boca, na orelha, nos olhos, nos braços, nas roupas… Água por tudo. Todos os rostos estavam virados para nós dois, que estávamos tentando entender como fomos parar dentro da piscina.

Eu ri de nervosa e olhei para meu corpo, apenas para perceber que minha blusa estava transparente e eu estava sem sutiã. Meus cabelos escorriam por todo o meu rosto e eu fechei os punhos de raiva e procurei os meus olhos favoritos. Olhei para ele séria e falei que precisava encontrar o outro pé da minha sandália, que por algum motivo, voou do meu pé na hora da queda. Ele me olhou, percorreu os olhos pela piscina e mergulhou ao encontrar uma mancha escura no fundo da água. Ele voltou à superfície com a sandália na mão e jogou na minha direção. Queria estar longe dali, queria estar seca, queria que as pessoas cuidassem de suas vidas e me deixassem sair da piscina sem ser o centro das atenções. Mas não, todo mundo ainda olhava para nós dois, alguns rindo e outros com cara de preocupação.

Tirei a outra sandália do pé, joguei os cabelos para frente (para disfarçar a transparência do tecido) e me virei para encontrar a escada da piscina. Que não estava ali. Eu só queria ir embora, só queria ir para casa, deitar na minha cama. Todas as minhas chances de passar uma noite inesquecível com ele tinham ido por água abaixo, literalmente. Mas não, tudo sempre dava errado.

Eu me virei e olhei para ele de novo, que me observava atencioso, com um sorriso deslumbrante estampado na cara. Tentei ficar séria, mas era impossível. Ele me tirava de órbita e por alguns segundos eu esqueci que estava dentro de uma caixa de água. Baixei o rosto e me lastimei, por tanto azar. Soltei uma risada baixinha e ele me olhou de novo, rindo também. E quando me dei conta do que ia acontecer, já estava acontecendo. Ele veio caminhando em minha direção, passou os braços por mim e me beijou. Ali, na frente de todo mundo. Dentro da piscina.

Água na boca...

Enquanto meus olhos estavam fechados, eu sorri com todos os centímetros do meu corpo e agradeci por aquela piscina estar no lugar certo, na hora certa. Senti o doce dos lábios dele me derreter por dentro e me contorci de desejo enquanto as mãos dele tocavam minhas costas molhadas. Não, aquela noite realmente não tinha hora para acabar.

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4 comentários em "Água na boca…"
  • Ai, Fê do céu e seus textos perfeitos! Amo quando escreve, já disse e repito, textos maravilhosos!
    Sempre tive vontade de me jogar numa piscina de roupa = FATO!
    Acho interessante neste texto de personagens sem nomes, nos identificarmos com sentimentos que nos lembram coisas que já vivemos, ou gostaríamos de viver!
    Abraços!

  • Adorei o texto. Muito bem escrito, consegui sentir todas as emoções descritas e adoro quando os textos me transportam desse modo para dentro dele.
    Fiquei até com vontade de um amor desses para me beijar na piscina hehehe
    Bjuxxxxx

  • Eu pensava que o penúltimo parágrafo seria o fim da história, mas aí depois da foto vi o últmo… Pelo penúltimo já dava para imaginar coisas, depois dos abraços e beijos então…

    Essa é mais uma daquelas histórias linda que felizmente acontecem na vida real, e o melhor é que acontece com frequência.

    Fê, eu ainda acho que você deve juntar esses textos e mandar para alguma editora. #Ficaadica

    Bjs!