2 de abril de 2016

O Dia do Casamento

Ela estava extremamente nervosa. Andava de um lado para o outro e passava as palmas das mãos na saia do vestido compulsivamente, secando o suor frio que enxarcava os seus dedos. Na frente do espelho, ela verificava mais uma vez se a maquiagem estava intacta, sorria para si mesma e virava o corpo de lado para se certificar de que o vestido estava perfeito, com tudo no seu devido lugar.

Ela estava linda, mais do que o normal. Os olhos castanhos marcados com um delineador preto, os lábios cor de cereja, o cabelo preso em um coque banana, envolto pelo véu que caía até sua cintura. O sapato era bem alto, mesmo que os seus 171cm já a fizessem alta naturalmente.

O Dia do Meu Casamento

Pela última vez, olhou para a mão esquerda, sem a aliança, e confirmou consigo mesma que estava fazendo a coisa certa. Então ela sorriu para seu pai, que a observava calado do canto do quarto, e avisou que estava pronta.

A marcha nupcial começou a tocar e as portas pesadas de madeira da igreja se abriram. Todos ficaram em pé, virados para ela, enquanto ela começava a dar os primeiros passos em direção ao altar, com seu pai enroscado em seu braço. Ela não conseguia parar de sorrir, aquilo tudo parecia muito surreal. Sentia uma espécie de dormência emocional, como se soubesse que estava feliz, mas não fosse capaz de assimilar aquele sentimento. Enquanto analisava todos os rostos que cruzavam pelo caminho, ela só continuou sorrindo e nada mais.

Quando chegou ao altar e se posicionou na frente dele, seu coração bateu mais rápido, porém se sentiu mais segura. Ele sempre tinha esse efeito sobre ela, como se pudesse resolver todos os seus problemas com apenas um sorriso ou um toque em sua pele. Ali, naquele momento, ela soube exatamente o que era ser a pessoa mais feliz do mundo. Estava realizada, completa e feliz.

Enquanto o padre falava sobre amor e responsabilidade, ela apenas o observava. Ele estava nervoso; ela podia deduzir apenas pelo jeito que ele tamborilava os dedos na perna, sorrindo de tempos em tempos, querendo provar o contrário. Era um dia especial para ambos e, assim como ela, ele também tinha os seus motivos para estar suando frio.

E então ele começou a repetir as palavras que o padre solicitou, respondendo que aceitava se casar com ela. “Sim, eu te recebo como minha legítima esposa e prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de nossas vidas.” A voz dele estava tremida e fraca como um suspiro. Assim que terminou os seus votos matrimoniais, fitou-a com os olhos mais doces do universo e apertou suas mãos suavemente, para confirmar que estava sendo sincero, que iria amá-la e respeitá-la por todos os seus dias, até que a morte os separassem.

O padre repetiu novamente as palavras e sinalizou que era a vez dela.

— Você aceita receber este homem como seu legítimo esposo?

A igreja ficou em silêncio. Ela baixou a cabeça e levou alguns segundos para encará-lo novamente. Olhou rapidamente para cada um dos rostos do altar e então olhou para os convidados sentados nos bancos do lado direto da igreja. E lá estava ele, aquele rosto tão conhecido, tão presente na vida dos dois, que agora estava tão distante, mas sobressalente na décima segunda fileira.

Ela ficou pensativa por alguns segundos, até que seus olhos sentiram necessidade de chorar. A igreja inteira estava em silêncio, apreensiva, e o noivo tentava balançar suas mãos e chamar sua atenção para ele. Mas ela estava decidida, ela sabia o que precisava saber. E ele sabia para quem ela estava olhando e sabia porquê estava olhando.

— Eu não posso fazer isso, eu não posso me casar contigo.

Ele não falou absolutamente nada, porque entendia o raciocínio dela. Seus olhos diziam que estava arrasado, mas que a perdoava também por aquilo. Uma explosão de burburinhos ganhou volume no salão da igreja; as pessoas viravam e se olhavam, sem entender nada.

Ela olhou pela última vez para ele, puxou o lado esquerdo do vestido para cima com a mão e desceu do altar, indo em direção à porta da igreja. Alguns rostos espantados seguiram os seus passos com os olhos até que ela sumisse de vista. Muitas pessoas pareciam não estar entendendo aquela confusão. Outras sabiam o que aquilo significava.

E, neste dia, naquele momento, enquanto saía às pressas pela porta, foi como deixou o amor de sua vida — plantado no altar, sozinho e inconsolável — ir embora. O homem que mais amou e talvez o único que amaria daquela forma. Embora doesse, ela precisava encerrar este capítulo de sua vida.

Estava devastada também, mas ela sabia que o grande amor da vida dele estava presente naquela igreja, mas não era a mulher de pé no altar. Por amá-lo tanto, decidiu renunciar seus sentimentos, para permitir que ele fosse feliz ao lado de quem faria a vida dele um paraíso… A mulher da décima segunda fileira, não ela.

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