23 de maio de 2013

Labirinto

Paramos lado a lado e olhamos para aquela parede alta de verde, que ia infinitamente para os dois lados. Na nossa frente, uma entrada não muito grande, que levava a diferentes caminhos e, dezenas de curvas mais tarde, a um espaço central com estátuas de pedra e bancos de madeira. Olhei de novo para ele e ele sorriu. Eu não acreditava que estávamos lá para fazer aquilo, mas precisávamos de respostas para dar um jeito em nossa situação e aquela ideia pareceu provocante o suficiente. Se aquilo funcionasse, seria nós dois desafiando o destino e traçando o nosso próprio caminho.

— Está pronta? — ele disse, ainda sorrindo para mim.

— Não, mas acho que não tenho escolhas.

Segurei a mão dele de leve e senti mais uma vez o cheiro de seu perfume me inundar por dentro. Olhei no relógio e entrei no labirinto, sem olhar para trás. Virei à direita e segui reto pelo corredor de vegetação, que se estendia por mais alguns metros à minha frente. Não sabia se daria certo e estava com medo de que aquilo se tornasse um pesadelo para mim, mas eu precisava tentar. Continuei andando pelo caminho de terra batida, fazendo escolhas aleatórias de virar para algum dos lados, e senti que já estava bem afastada do marco de entrada.

Labirinto

Momentos depois, olhei o relógio novamente e vi que já havia passado mais de 5 minutos que eu tinha entrado lá. Conforme o combinado, ele já devia estar entrando no labirinto à procura de mim no lugar de chegada, no máximo até 30 minutos depois. Agora aquilo me parecia a ideia mais estúpida da face da Terra… Como poderíamos basear nosso destino em uma brincadeira em um labirinto, como se aquilo não fosse algo sério e extremamente relevante para o nosso futuro? Fechei os olhos rápido e pensei para mim mesma: por favor, faça com que a gente se encontre lá no meio, por favor, por favor.

Continuei dobrando esquerdas e direitas, até me deparar com um corredor sem saída. Fiquei parada por alguns segundos e olhei para o céu. O dia estava claro, o sol batia forte nos meus ombros e a brisa suave de outono não deixava que o calor fosse muito intenso. Fechei meus olhos e lembrei da voz dele, rindo de alguma bobagem que eu costumava lhe falar. Senti meu rosto se desdobrar em um sorriso e dei meia volta, procurando um novo caminho para chegar até o meu objetivo. Voltei alguns corredores e mudei o curso da minha direção.

Os minutos passavam e o labirinto não parecia terminar nunca. Avancei, retornei, achei becos sem saída, cruzei por muita gente pelo caminho, mas não o via em canto algum. Minha respiração ficou ofegante e senti uma crise de pânico tomar conta de mim aos poucos. Fechei meus olhos e pensei na sensação da mão dele sobre a minha pele. Um arrepio subiu minha espinha e me lembrou que eu só teria aquilo de volta se eu não desistisse agora. Meus pés andavam mais rápidos do que minha cabeça conseguia desvendar o trajeto certo, mas mesmo sem saber para onde estava indo, eu continuei em frente.

Tentei não olhar muito no relógio e esquecer que estava com os minutos contados, mas a verdade é que aquilo me apavorava. E se não desse tempo? E se não nos encontrássemos lá no meio? Seria o nosso fim? Fechei meus olhos e imaginei aquele olhar doce me mirando, gravando todos os detalhes na memória, enquanto suas mãos percorriam os traços do meu rosto. Respirei fundo e resolvi voltar pelo mesmo corredor, porque algo me dizia que o percurso para a minha felicidade não era por ali. Senti vontade de correr, passando as mãos pelas paredes de folhas, me guiar pelo vento, pelo sol, por algo maior do que eu.

Senti minhas pernas acelerarem o ritmo e só parei quando ouvi um barulho ao meu lado. Meu celular estava caído alguns metros atrás e um nó fechou minha garganta, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas enquanto eu me abaixava para juntar o telefone do chão e recolocá-lo no bolso. Fechei meus olhos e me envolvi com a lembrança de quando ele me abraçou pela primeira vez, forte, como se aquele momento devesse durar para sempre. Enchi o peito de coragem e continuei devagar por mais algumas retas e curvas que apareceram pelo caminho.

Algum tempo depois, eu virei a última esquerda e vi as paredes se abrirem em uma pequena praça, com bancos ocupados por crianças e casais, que conversavam e riam sobre a dificuldade de chegar até ali. Fechei meus olhos e senti medo. Girei sobre meus pés, procurando encontrar o rosto que enxergo sempre em meus sonhos, mas ele não estava ali. Mas lembrei que era justamente daquilo que precisávamos, uma resposta, uma coincidência, uma ajuda providencial. Se fosse para nos encontrarmos, nos encontraríamos. Se o acaso não quisesse que nossos caminhos continuassem se cruzando, aquela seria a nossa prova. Olhei o relógio pela última vez e tremi de cima a baixo.

Faltando um minuto para todas as minhas esperanças irem por água abaixo, eu respirei com força e senti aquele cheiro inconfundível. Era o perfume dele. Fiquei com medo de virar para olhar e encontrar rostos desconhecidos, pessoas que não faziam o meu coração bater mais forte. Permaneci imóvel e fechei os olhos pela última vez. Senti a mão dele me abraçar por trás, seu queixo pairar sobre o meu ombro e os lábios sussurrarem na minha orelha um “achei”. Soltei o ar aliviada e apertei a mão dele com força, quase sentindo meus ossos se quebrando por dentro. Minha barriga deu cambalhotas e ele me virou de frente para ele, revelando o sorriso mais lindo do mundo aberto de lado a lado em seu rosto. Sorriso agora que era meu também. Meu.

Gostou deste post?
(0)
Comente Este Post

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 comentários em "Labirinto"
  • Que delícia de texto! Quase pude sentir como se eu fosse a garota da história. Sinto falta de ter tempo pra escrever coisas assim :(

  • Hey :)
    Como vai Fernanda?
    Que texto lindo *-*
    Hum…queria encontrar alguém especial neste labirinto que é nossas vidas….alguém pra dividir o sorriso :)

    Beijos e bom final de semana

  • Fe, adorei o texto. Me fez lembrar de um filme. “Serendipity”, ou “Escito nas estrelas”, em português.

    Além de ser apaixonada pelo John Cusack, é uma história muito gostosinha de seguir. E parece muito com o seu texto. Porque, caso você não tenha visto, o homem e a mulher se conhecem e ela acredita muito no destino, se eles se encontrarem de novo, é porque é o que o destino quer assim.

    Por isso eu acho interessante, não querendo ser palpiteira, acrescentar no começo do seu texto que eles haviam acabado de se conhecer, sei lá. Se bem que ficou claro, né? Uma dica só.

    Continue escrevendo textos assim!

    Beijos