6 de novembro de 2013

Cravo e canela

Nem era para eu estar postando aqui, porque o layout novo do blog ainda não está pronto, mas eu venho me sentindo tão inspirada para escrever que resolvi burlar as minhas regras e postar esse texto, para tirar um pouco a poeira daqui. Espero que o próximo post já seja para falar do visual novo do Confabulando, então até lá.

Mandei uma mensagem para o celular dele e fiquei aguardando na frente do prédio. Eu sabia que ele não me responderia, mas em alguns minutos estaria cruzando a porta do elevador e vindo em minha direção. Aguardei ansiosa, mexendo os pés descontroladamente, tentando disfarçar qualquer nervosismo que pudesse transparecer — provavelmente sem sucesso. Olhei no relógio algumas vezes e, apesar de estar com um pouco de pressa, sabia que tinha tempo para fazer o que precisava. E para vê-lo, principalmente.

Ouvi o barulho do portão se abrindo e virei para trás, observando-o enquanto caminhava até mim. Quando nossos olhos se cruzaram, ele abriu um sorriso tímido, deixando meus joelhos bambos e todas as espécies de borboletas do mundo acordadas dentro do meu estômago. Não consegui conter um sorriso também e assim que ele reparou o efeito que provocara em mim, sorriu ainda mais, lembrando-me novamente todos os motivos pelos quais eu havia inventado uma desculpa para me encontrar com ele mais uma vez.

Quando os pés dele pararam em frente aos meus, não soube muito bem o que fazer. Estava segurando o livro dele em minhas mãos, que tremiam levemente, revelando o quanto eu estava feliz por finalmente estar matando a saudade. Estendi a mão e agradeci pelo livro, entregando-o sem jeito e ocupando minhas mãos livres com uma mecha de cabelo que estava caída em frente ao meu rosto. Olhei para baixo, para os lados, pra algo qualquer que acontecia atrás dele, mas não conseguia sustentar aquele par de olhos escuros, que me fitavam curiosos.

Sem que eu esperasse, ele segurou minha mão que estava brincando com o pingente da minha bolsa, recuperando minha atenção, e perguntou se podia me dar um abraço. Sorri por dentro e por fora e respondi com um aceno de cabeça. Segundos depois, os braços dele me envolveram com delicadeza, mantendo-me firme e próxima ao seu corpo, que se encaixava perfeitamente ao meu. Eu senti ele brincar com as pontas dos meus cabelos, enquanto eu me embriagava com o seu perfume, que entrava pelas minhas narinas e ia direto para o meu coração, acelerando meus batimentos.

Ficamos ali por vários minutos, quietos e sentindo o calor um do outro. Percebi quando ele desceu a mão para a minha cintura e me apertou com um pouquinho mais de força, fazendo eu prender o ar por alguns instantes e então suspirar de prazer. Aquilo tudo parecia muito certo, nós dois éramos compatíveis. Em tudo — e mesmo em nossas diferenças. Ele era tudo o que eu esperava e um pouco mais. Não conseguia pensar em um motivo qualquer para não lutar por uma história nossa; eu queria aquilo, e queria muito.

Cravo e canela

Ao que me pareceu ser horas mais tarde, eu despertei daquele sonho. Ele ainda estava me abraçando e eu quase podia sentir as batidas do seu coração, de tão perto que estávamos. Lembrei-me que precisava voltar para o trabalho e pigarreei sem jeito, fazendo-o acordar de um transe também. “Eu ficaria aqui o dia todo contigo, mas eu preciso ir embora”, disse. Ele riu, ainda sem me soltar. E então ele me abraçou mais forte e desceu as mãos pelas laterais do meu corpo, encontrando minhas mãos desajeitadas com as suas e entrelaçando alguns de nossos dedos. Senti a barba dele roçar na minha bochecha quando ele recuou devagar, parando a poucos centímetros do meu rosto. Fiquei tonta.

“Eu senti a tua falta”, ele sussurrou. “Gosto do jeito como somos um com o outro e ainda não me acostumei de não te ter mais por perto.” Cada palavra que saía dos seus lábios me fazia estremecer. Acho que mais pela proximidade do que pelo contexto em si. O hálito dele tocava na ponta do meu nariz e me fazia perder as palavras; fiquei muda enquanto ele me olhava sério e intensamente, curvando de leve os cantos da boca e me provocando em silêncio. Fiz uma careta e retruquei um “tchau” quase inaudível, perdendo todas as esperanças de um dia saber como agir ao estar perto dele.

Antes que eu pudesse pensar em como escapar dali, ele me puxou para mais perto e me beijou. Seus lábios tocaram os meus suavemente e percebi que uma das suas mãos contornavam os traços do meu rosto, mantendo-me presa e impossibilitada de fugir. Ele me conhecia melhor do que a maioria das pessoas. Minha cabeça se esvaziou de qualquer pensamento e meus pés desgrudaram do chão. Fazia muito tempo que não me sentia assim; aquele beijo me tirou de órbita.

Abri meus olhos devagar e ele estava me estudando com carinho. Ficamos nos fitando com olhos entreabertos, piscando devagar e mordendo os cantos dos lábios. Tanto ele quanto eu. Baixei os olhos e me afastei dele, sabendo que precisava ir embora ou não responderia pelos meus atos. Ele sorriu discretamente e umedeceu os lábios com a língua, fazendo eu me contorcer de desejo. Sustentei o olhar dele por alguns segundos e tomei coragem para beijar o canto de sua boca, despedindo-me e roubando um pouco mais daquela sensação gostosa que ele me passava. Fechei os olhos enquanto sorria e virei de costas para ir embora, levando comigo o gosto dele, que combinava com o meu assim como feijão com arroz, queijo com goiabada e chocolate com pimenta. Cravo e canela, eu e ele e vice-versa.

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4 comentários em "Cravo e canela"
  • Ainda bem que você burlou suas regras e resolveu postar antes do layout novo (embora eu esteja ansiosa por ele também!).
    Você escreve tão bem, Fê..já pensou em escrever um livro? Eu compraria, com certeza…
    Adorei esse texto, como adoro todos os outros que você escreve..
    Beijão!

  • Boa tarde,
    Como vai?

    Ah,adorei o texto *——-*
    Queria estar apaixonado ou pelo menos ter inspiração atual pra fazer um texto como você fez.
    Queria encontrar alguém que combinasse comigo…tipo,cravo e canela :p

    Beijos

  • Eu não conseguia parar de ler um instante sequer do seu conto Fernanda. Tão lindo, delicado, cheio de detalhes que só que está apaixonado percebe. Lindo, lindo, lindo. *u*

    Beijocas, e ansiosa pelo layout novo!